Gesto clichê entre os cronistas urbanos é alguma descrição melancólica de cenas observadas a partir da janela de um apartamento. Embalado pela solidão de uma noite fria e sem sentido, basta o autor falar que observa um casal que chega em casa com resquício de desentendimento, um cachorro que se abriga da chuva na varanda de uma casa desalugada, um poste que acende e apaga em dias aleatórios, como se tivesse a própria vontade. Em cada parágrafo comenta essas cenas fazendo projeções sobre a solidão de estar acompanhado, o desalento, a aleatoriedade das coisas que não acontecem.

Da minha janela de apartamento lembro quando estranhava, e ainda estranho, ouvir soteropolitanos sonharem em ter um apartamento. Parece que em Feira somos mais adeptos a morar em casa, perto do chão, no mesmo plano em que vivem bois e galinhas, onde se plantam coentro e maxixe, onde ficam apoiadas as barracas das feiras. No site do IBGE é dito que apenas 9,77% dos domicílios particulares feirenses ocupados são apartamentos, abaixo do registrado em cidades baianas menores, como Juazeiro, 11,6%, e Vitória da Conquista, 15,5%. Em Salvador, 22,2% da população mora em prédios, enquanto na capital São Paulo uma de cada três pessoas é apartamentada.

Em Feira, comércio que precise subir escada enfrenta dificuldades. O shopping Jomafa, no auge, não ficou badalado no pavimento superior, onde tinha instalado um painel de Juraci Dórea. O shopping Boulevard, depois de várias transformações, nunca ousou ficar maior que um pé de manga espada. Aquela parte de cima do Arnold Silva Plaza não sei como anda. Os prédios que funcionam bem por aqui são os chamados empresariais, com clínicas, escritórios, sedes de empresas, coisa que você marca hora pra ir. Para comércio, o povo da Feira parece preferir o imediatismo de ter acessível o lugar de compra, a um quanto é de distância.

As luzes da casa onde mora o casal se apagaram. De uma das janelas vê-se o reflexo das cenas da televisão ligada. Talvez tenham se reconciliado, desapartados pela cena cômica de um filme que lhes fez coincidir nas gargalhadas. O cachorro saiu à procura de um lugar menos frio. A luz do poste informa que a chuva cai fininha, do jeito bom para dar amendoim muito e barato para o São João que logo chega.

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