Um dos principais símbolos de Feira de Santana são as sacolas esticadas nas mãos de mulheres que passam pra lá e pra cá no centro da cidade. Estão presentes em todo lugar, carregando sobrevivência, luxos simples, presentes, novidades, necessidades.
A parte interna dos dedos vai marcada pela alça da sacola pesada. Conforme mais compras são feitas, revezam o peso ajustando sacolas no antebraço ou usando o ombro como cabide. Quando há crianças em uma das mãos ou no colo a engenharia se torna mais complexa, com choros, sedes, fomes, malcriações. Menino já grandinho carrega alguma coisa, alivia o peso.
Dona Socorro foi pra rua pegar um corte de pano pra fazer um vestido que vai usar no casamento da afilhada, acelera os passos porque chegando em casa ainda tem feijão pra cozinhar. Viu umbu bem madurinho, aguado, parou pra comprar, vai comer assistindo a novela da tarde. Gisele usa o horário de almoço na ótica pra comprar uma cortina para o banheiro que fica todo molhado quando liga o chuveiro, não aguenta mais a molhação. Nise anda devagar, respeitando os joelhos cansados pela idade e olhando as vitrines e balaios para escolher o presente do neto. Gosta de observar os brinquedos com movimento e luz, no tempo dela não tinha disso. Devem ser brinquedos bons de brincar. Luza passa na farmácia, os remédios estão caros.
Não é difícil ver uma dessas mulheres caminhando, olhando para as lojas, para as barracas ou carrinhos de ambulantes e repentinamente parando, quebrando o fluxo do povo indo e vindo. Olha para uma oferta, algo que interessa, reflete a compra. Do outro lado a vendedora tenta perceber se é isso mesmo, uma cliente, uma venda, comissão. Chega pra loja freguesa! Dê uma olhadinha, sem compromisso. Dúvida, a sacola já está pesada, a conta, a bolsa esvaziando. Faço um desconto, divido pra três, ouve de lá.
Sempre cabe algo mais na sacola. Dá pra carregar. Melhor aproveitar a viagem. Chega em casa cansada, satisfeita. Estava precisando ir na rua.

