Antes do hospital, havia o mato. Foi assim que me relatou o senhor Dário, escorado na janela de casa, com aquele ar de prosa interiorana que transforma a memória em paisagem. Um campo de sisal se estendia às margens da estrada de terra que ligava Feira de Santana a Salvador. Não existiam pavilhões, ambulatório, água encanada ou energia elétrica. Também não havia o Hospital Geral Clériston Andrade, o 35º Batalhão de Infantaria, o contorno nem o bairro Jomafa como hoje os conhecemos. Dário conversava ao mesmo tempo comigo e com suas lembranças, refazendo pela palavra uma Feira que já não estava diante de nós.

Foi nesse lugar ainda sem nome que Dário Bispo Ribeiro chegou em 12 de outubro de 1960. Ele não veio sozinho. Trouxe ferramentas, arame farpado, alimentos e doze pacientes do Hospital Juliano Moreira, em Salvador. Eram homens escolhidos porque, segundo Dário, sabiam trabalhar com facão, machado, foice e cavador.

Em 22 de julho de 1962, data oficial de fundação reconhecida pela Secretaria da Saúde da Bahia, o Hospital Colônia Lopes Rodrigues passou a existir formalmente. A burocracia registraria a instituição e fixaria uma data como o começo de tudo. A história contada por Dário, porém, começava quase dois anos antes, quando ainda não havia hospital para inaugurar, somente um grupo de homens diante de um descampado e seus destinos.

Quando a fundação oficial ocorreu, o terreno já havia começado a ser limpo e cercado. A casa destinada ao médico e o primeiro pavilhão se levantavam sobre o antigo campo de sisal. Antes que o hospital tivesse direção formal ou existência nos registros do Estado, pacientes psiquiátricos vindos da capital participavam da implantação do lugar no qual seriam internados.

Dizer que os doze pacientes construíram sozinhos o hospital seria substituir o apagamento por outro exagero. Dário menciona a participação posterior de trabalhadores contratados, engenheiros e funcionários. Seu testemunho, entretanto, não deixa dúvidas sobre o envolvimento dos pacientes na etapa inicial: eles roçaram o terreno, manejaram ferramentas, transportaram água e realizaram tarefas necessárias para que a colônia começasse a funcionar.

O homem que chegou primeiro

Colônia Lopes Rodrigues

Conheci Dário em 2015, durante a pesquisa que resultaria no trabalho de conclusão de curso “‘O Manicômio da Princesa’: reflexões sobre a psiquiatria institucional em Feira de Santana – Bahia”, apresentado ao curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Na época, ele vivia numa das casas situadas na entrada do Hospital Especializado Lopes Rodrigues, ao lado de estruturas que passaram a integrar o processo de desinstitucionalização da unidade. A proximidade produzia uma imagem curiosa: o homem que havia chegado para ajudar a erguer a colônia envelhecia junto de moradias destinadas a tornar possível a saída de seus antigos internos.

Dário já havia atravessado nove décadas de vida e mais de meio século de lembranças. Entre os funcionários antigos, era apresentado por um título que parecia lhe pertencer naturalmente: “o fundador”. Nascido em Santa Teresinha, nas proximidades de Castro Alves, havia trabalhado no Hospital Juliano Moreira. Começou como estagiário, recebeu formação prática no cuidado aos pacientes e depois foi contratado. Permaneceu ali por aproximadamente seis anos, segundo contou, até ser escolhido para iniciar a instalação de uma colônia psiquiátrica em Feira de Santana.

Ele não queria vir. Conhecia pouco a cidade e temia o lugar para onde estava sendo enviado. Aceitou depois que lhe prometeram diárias e uma casa onde pudesse morar com a família. Um teto e algum dinheiro exerceram a persuasão necessária, mas, como tantas vezes acontece, a promessa chegou antes daquilo que prometia. Quando Dário desembarcou em Feira, a casa ainda não existia. Foi necessário construí-la. Proeza realizada tempos depois.

Durante a entrevista, ele repetiu diversas vezes que “não tinha nada”. A frase regressava como se cada repetição retirasse mais alguma coisa da paisagem: não havia luz, água encanada, estrada pavimentada ou hospital. Existia somente um alojamento forjado por eles. Para tomar banho, os homens caminhavam em busca de água e voltavam equilibrando baldes na cabeça para encher os tonéis. Um dos pacientes sabia cozinhar e assumiu o preparo da comida, enquanto os demais se dividiam entre o mato, as ferramentas e as tarefas daquele começo.

Dário dizia ter permanecido aproximadamente um ano e alguns meses trabalhando nessas condições, acompanhado pelos doze homens. Mais tarde vieram médicos, funcionários e novos internos. Chegou também o primeiro diretor, identificado por ele como o psiquiatra Carlos Alberto Kruschewsky. Pouco a pouco, o campo ganhou paredes, e as autoridades passaram a ter um hospital para chamarem de seu.

Cinco nomes e sete presenças

Colônia Lopes Rodrigues

Mais de cinquenta anos depois, Dário ainda conseguia encontrar cinco daqueles homens na memória: Antônio de Souza Nabuco, Ângelo José de Oliveira, João Matos, Joaquim da Silva Paiva e Demerval dos Santos. Memória também é esquecimento. Contar uma história tem seus infortúnios. Mas foi pela voz de Dário que esses homens reapareceram, obrigando-nos a reconsiderar quem participou da implantação daquele lugar e quais condições tornaram possível seu surgimento.

Dos doze pacientes, cinco nomes atravessaram o tempo nas lembranças de Dário. Os outros sete permaneceram inominados. Talvez estejam escritos em prontuários ainda preservados, tenham figurado nos livros de ocorrência ou sobrevivam numa caixa fechada sob a poeira de algum depósito. Talvez tenham desaparecido com documentos descartados durante as mudanças administrativas do hospital, os seus apagamentos propositais. Vagam por aí, com certa desimportância.

Há histórias que sobrevivem apesar das ausências e outras que só podem ser percebidas por meio delas. O hospital preservou os nomes de médicos, dirigentes e autoridades. Guardou datas de fundação, diagnósticos, medicações, transferências e mortes. Dos homens que chegaram antes da existência oficial da instituição, restaram fragmentos na lembrança de um antigo funcionário.

Décadas mais tarde, Feira de Santana inscreveria o nome de Carlos Alberto Kruschewsky em uma de suas maiores obras de mobilidade urbana: o túnel inaugurado em 2018 no cruzamento das avenidas João Durval Carneiro e Presidente Dutra. A cidade preservou em concreto o nome de seu primeiro diretor. Dos doze pacientes que chegaram antes dele, restam apenas prosas e falarias.

Coisas da terra de Lucas!

“O doente fazia tudo”

Colônia Lopes Rodrigues

A participação dos pacientes não terminou quando os primeiros pavilhões ficaram prontos. Dário contou que, durante anos, os internos trabalharam na limpeza, na cozinha, na agricultura e na manutenção. Quando ainda não havia serventes suficientes, pacientes e atendentes de enfermagem realizavam diversas tarefas do cotidiano. “O doente fazia tudo”, resumiu.

Em sua lembrança, a frase tinha o sentido de um elogio. Era uma maneira de afirmar que aqueles homens possuíam capacidades ignoradas pelo mundo exterior. Sabiam cozinhar, plantar, manejar ferramentas, cuidar de animais, cortar cabelos e reparar objetos. Enquanto o diagnóstico procurava medir quanto de normalidade ou “civilidade” lhes faltava, Dário recordava a capacidade que tinham de tecer mundos.

O depoimento de Dário carrega essa contradição. Ele amava o hospital, orgulhava-se de ter participado de sua fundação e defendia os serviços prestados por eles e os pelos doze pacientes. Falava das plantações, das festas e da alimentação. Ao mesmo tempo, descrevia pavilhões superlotados, camisas de força, eletrochoques, insulinoterapia e pacientes enviados de Salvador porque o Juliano Moreira já não conseguia abrigá-los.

Não é preciso escolher entre uma lembrança afetuosa e os desfazimentos existenciais que as ditas instituições psiquiátricas modernas imprimiram. As duas convivem na fala de Dário, assim como convivem no mundo de hoje. O carinho de quem entregou a vida à instituição não desfaz a violência emanada de práticas que, até hoje, insistem em perambular. Em alguma medida, a consciência que emerge da alegria e da dor presentes no discurso de Dário não sinaliza apenas aquilo em que, de fato, se constituiu o Lopes Rodrigues: vai além. Acena para a capacidade humana de produzir as mais diversas feituras, para o bem e para o mal.

Uma cidade para o progresso ou um progresso para a cidade

Colônia Lopes Rodrigues

O Lopes Rodrigues não surgiu apenas porque Feira de Santana necessitava de atendimento psiquiátrico. Na década de 1960, a cidade intensificava seu projeto de modernização. Rodovias eram abertas e pavimentadas, o discurso político anunciava o progresso e a industrialização começava a transformar a paisagem, o trabalho e o movimento das ruas. Feira buscava consolidar-se como a grande cidade do interior baiano.

Modernizar, para os modernizadores, não significava somente construir avenidas, indústrias e edifícios. Significava também estabelecer quais comportamentos pertenciam à cidade desejada e quais deveriam ser corrigidos, afastados ou silenciados. A localização do hospital parecia responder a essas duas necessidades. O terreno ficava distante do centro urbano daquele período, retirando os pacientes da paisagem cotidiana, mas estava próximo das ligações rodoviárias com Salvador e outras regiões da Bahia. Há muito da cidade encruzilhada nas fundações do hospital psiquiátrico.

Enquanto Feira preparava sua entrada no futuro, o Juliano Moreira enfrentava problemas antigos de superlotação e inadequação estrutural. A psiquiatria baiana encarava suas crises. A criação de uma colônia no interior oferecia uma saída para os pacientes classificados como crônicos — pessoas para as quais o modelo psiquiátrico da época reservava não um tratamento breve, mas a possibilidade de passar a vida dentro de uma instituição.

Dário contou que as transferências continuaram depois da fundação. Vieram pacientes de Salvador e de diferentes municípios baianos. Para recebê-los, novos pavilhões foram construídos. Algumas estruturas, chamadas de células, abrigavam cem ou até 120 pessoas, segundo sua recordação.

A chegada de ônibus lotados de pacientes vindos do Juliano Moreira faz parte desse cenário. Os prontuários teriam chegado incompletos e desorganizados. Para descobrir qual documento pertencia a cada pessoa, os funcionários comparavam os rostos com as fotografias presas às fichas: primeiro o rosto, depois o nome e, por fim, o diagnóstico. Feira modernizava suas avenidas enquanto recebia aqueles que a capital rotulava de antimodernos.

O livro dos mortos

Colônia Lopes Rodrigues

Durante a pesquisa, tive acesso aos livros de óbitos do Hospital Colônia Lopes Rodrigues. Havia nele nomes, datas de entrada, diagnósticos e causas de morte. As páginas organizavam as finitudes de uma vida em linhas e colunas: desidratação, caquexia, insuficiência cardíaca, morte súbita. Em alguns casos, no lugar da causa havia apenas um ponto de interrogação. A morte continua uma eterna dúvida.

Entre 1962 e 1999, os livros reuniam 833 registros de falecimento. No recorte dos dez primeiros anos, entre 1962 e 1972, a pesquisa identificou 364 entradas e, entre esses pacientes, 291 mortes ocorridas no mesmo período. Os dados precisam ser lidos considerando as limitações da documentação e os critérios empregados na elaboração do registro, mas ajudam a revelar a dimensão da instituição que crescia às margens da estrada. Um verdadeiro morredouro. O que os mortos têm a nos dizer?

Dário dizia que tudo era anotado. Cada turno produzia livros de ocorrência nos quais os funcionários registravam medicações, episódios e acontecimentos dos pavilhões. Segundo ele, existiu um cômodo cheio de livros e papéis antigos, mas parte desse material teria sido descartada e queimada.

Não foi possível comprovar o destino de todos os documentos. A afirmação permanece como testemunho de um antigo funcionário, não como conclusão definitiva. Uma imagem difícil de abandonar: um quarto cheio de papéis, anos de nomes, crises, fugas, medicações e mortes; depois o fogo ou o lixo. Como contar uma história impossível a partir de documentos produzidos por uma instituição que apagou aqueles que a construíram? Resta-nos uma certa fabulação.

O Hospital Colônia Lopes Rodrigues pode ser compreendido como uma instituição de surgimento e de chegada. Surgiu porque Feira de Santana construía um ambiente político e urbano favorável às instituições associadas à modernização, à medicina e ao controle social. Chegou porque sua história foi trazida de Salvador por Dário, pelos primeiros pacientes, pelas práticas aprendidas no Juliano Moreira e pelas transferências de centenas de pessoas consideradas crônicas.

Foi no encontro desses movimentos que nasceu o “manicômio da Princesa”. A expressão não nomeia apenas um edifício: guarda a contradição de uma cidade que perseguia o progresso enquanto afastava aqueles que não correspondiam à ordem desejada.

Dos doze homens que chegaram em 1960, conhecemos possivelmente cinco nomes. Dos demais, restou a memória — uma forma de existência, uma ausência presente. Antes do hospital, da placa, do diretor e da fundação oficial, eles estavam ali. Cortaram o mato, buscaram água e ajudaram a preparar o terreno. Não sabemos o que pensavam, se queriam permanecer ou o que disseram durante aqueles primeiros dias.

Podemos apenas caminhar até a margem do silêncio e reconhecer que existe alguém do outro lado. A história oficial começou em 1962, mas eles chegaram antes. Eram doze. E Dário.

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